Relatório das viagens de observação de cetáceos - 2005 -
No nosso primeiro ano de actividade (2005) efectuámos viagens para o mar entre o início de Julho e meados de Setembro. No total, a taxa de avistamentos de cetáceos foi de 75%. Isto significa que, em média, avistámos cetáceos em 3 de cada 4 viagens.
Espécies avistadas
Em 2005 registámos 4 espécies diferentes de cetáceos. A espécie que avistámos com mais frequência foi o Golfinho-comum, e em menor percentagem os Botos, Grampos e os Roazes.
Lista das espécies de cetáceos que observámos em 2005:
Nome comum |
Nome científico |
|
| Golfinho-comum |
Delphinus delphis |
89% |
| Boto |
Phocoena phocoena |
3.2% |
| Grampo |
Grampus griseus |
3.2% |
| Golfinho-roaz |
Tursiops truncatus |
1.6% |
| Não-identificado |
- |
3.2% |
Em 2 ocasiões não foi possível identificar a espécie com certeza, mas as suspeitas apontam para 1 avistamento de Boto e outra para 1 avistamento de uma Baleia-de-bico do género Mesoplodon. Este tipo de baleias tem um comportamento muito tímido em relação à presença humana, pelo que são geralmente muito difíceis de observar e de identificar. Esta observação foi especialmente interessante, por ter sido realizada aos 80m de profundidade, uma vez que este género de baleias é conhecida por habitualmente frequentar águas de grande profundidade.
Distribuição espacial
Na figura que se segue estão representadas as posições iniciais dos avistamentos de cetáceos que realizámos em 2005:
Constatámos que a maioria dos avistamentos foram efectuados entre as 1.5 e as 4 Milhas náuticas da costa. Uma grande parte destas observações ocorreu nas proximidades de Sagres, mas nalgumas ocasiões afastámo-nos um pouco mais para encontrar os cetáceos, geralmente na direcção de Lagos. E porquê na direcção de Lagos? Por que a costa Sul provoca um efeito de protecção aos ventos predomintes na região (do quadrante Nororeste) oferecendo condições de mar geralmente mais amenas e, como tal, propícias à detecção dos golfinhos.
Distribuição temporal
Mensal
Para termos uma ideia do que aconteceu ao longo dos 3 meses em que efectuámos viagens no ano de 2005, calculámos a taxa de avistamentos registada em cada mês (dividimos o número de avistamentos registados em cada mês, pelo número de viagens realizadas nesse mês).
Mês |
Taxa de avistamentos (%) |
Julho |
116.7% |
Agosto |
75.0% |
Setembro |
76.0% |
Constatámos que Agosto foi o mês com maior taxa de observação de cetáceos por viagem, e Setembro a menor taxa.
Diária
Em 2005 realizávamos 4 saídas por dia, com início a diferentes períodos do dia (duas de manhã e duas à tarde). Resolvemos analisar o que se passou ao longo do dia, e calculámos a taxa de avistamentos para os diferentes períodos do dia (dividimos o número de avistamentos contabilizados em cada período do dia pelo número de viagens realizadas nesse período). Obtivemos os seguintes resultados:
Hora da Viagem |
Taxa de avistamentos (%) |
9:00 - 10:30h |
116.7% |
11:30 - 13:00h |
75.0% |
15:00 - 16:30h |
76.0% |
17:30- 19:00h |
30.0% |
A viagem com maior sucesso de observação foi a primeira da manhã, em que se efectuou, em média, mais do que 1 avistamento por saída. A contrastar, a última viagem do dia em apresentou, em média, o menor número de avistamentos. Ou seja, verificámos que o que a taxa de observação de cetáceos diminui consideravelmente entre o início e o final do dia.
Breve discussão
Existem factores de várias ordens que influenciam a distribuição dos cetáceos, como o tipo de habitat (temperatura da água, profundidade) ou biológicos (distribuição e abundância de presas e predadores), entre outros. Estes por sua vez também se alteram ao longo do tempo, tanto sazonalmente como ao longo do dia.
Os resultados que aqui apresentamos estão relacionados não só com estes factores de ordem ecológica, mas também pela nossa capacidade de detecção dos animais. As condições climatéricas são as mais importantes: quando são adversas dificultam a nossa tarefa. O estado do mar, o reflexo do sol na água, e os conhecidos "carneirinhos" provocados pelo vento influenciam muito a nossa detecção, tanto visual como acústica.
O facto de termos efectuado mais avistamentos no mês de Agosto poderia ter sido influenciado por motivos de ordem ecológica (existir um aumento da abundância de cetáceos junto à costa nesta altura do ano) e/ou por razões climatéricas (o mês de Agosto apresenta, geralmente, condições mais amenas e favoráveis à sua detecção). O mesmo acontece com a variação diária na taxa de avistamentos de cetáceos, bastante elevada durante a manhã: nesta altura do dia o estado do mar costuma ser mais ameno e propício para os encontrar. Por outro lado, uma possível explicação de ordem ecológica poderia estar relacionada com a variação da distribuição das suas presas, que de manhã ocorressem mais abundantemente junto à costa e, como tal, oportuna à presença de mais golfinhos. Mas estas são apenas algumas explicações possíveis, não passando de meras especulações.
Na realidade a ecologia procura descrever e explicar os padrões de distribuição e de abundância dos organismos vivos. Estes padrões reflectem uma complexa rede de interacções entre organismos de diferentes espécies, com outros indivíduos da mesma espécia e o meio ambiente. A nossa equipa pretende, com o registo destas informações ao longo do tempo, ajudar a desvendar estes padrões e de alguma forma compreender a distribuição e abundância das espécies de cetáceos na costa do Sudoeste português. |