A nossa equipa observou, no passado dia 31 de Agosto, um grupo de Orcas (Orcinus orca) a 5 milhas náuticas a Sul da Ponta de Sagres.
12:35h Tínhamos acabado de chegar do mar e preparávamo-nos para almoçar quando recebemos um telefonema com a indicação de que estavam orcas a passar ao largo da costa Sul. Uma vez que tínhamos uma viagem marcada para as 14:30h, restavam-nos pouco menos de 2h para ir até ao local e regressar a tempo de efectuar essa a viagem. Foram-nos dadas as coordenadas geográficas e, através de um programa informático, rapidamente confirmámos a que distância os animais se encontravam do porto da Baleeira: cerca de 5 milhas náuticas. As orcas são animais que se deslocam rapidamente, mas não tínhamos informações acerca do grupo. Contas feitas, e como seria de esperar, não resistimos à tentação e decidimos arriscar. As probabilidades de sucesso eram incógnitas...
12:53h Em menos de 20 minutos estávamos a bordo do Kogia, rumo à aventura. O GPS indicava o rumo a seguir e o tempo estimado de chegada ao local, a partir das coordenadas que obtivémos via rádio VHF com outro barco.
13:09h O Kogia pode ser bastante rápido. Tendo em conta as condições de mar razoáveis e o facto do barco estar vazio, em menos de outros 20 minutos estávamos a chegar à área. A única embarcação que estava no local informou-nos que os animais estavam submersos e ainda não sabia o que estavam a fazer: deslocação, alimentação, socialização?...
13:15h Havia uma ondulação alta e larga e algum vento a dificultar a detecção do grupo. Enquanto não os observássemos e percebessemos qual o seu comportamento, não seria fácil calcular onde poderiam reaparecer. Mas não demorou muito, até por que estes aimais não passam muito despercebidos. Ei-las! Ali estavam as orcas, "à porta de casa", em condições de mar agora algo adversas, e pudémos então sentir a emoção há muito não vivida de contactar com estes predadores de topo dos oceanos.
Eram 3 indivíduos... Pelo menos 2 fêmeas adultas. Aproximámo-nos lentamente e deixámos o barco à deriva, afim de avaliar o seu comportamento. Havia uma certa cumplicidade entre os animais, uma espécie de jogo, a realizar-se junto à superfície, ora emersos, ora submersos. Estariam a socializar? Afinal, eram 3 fêmeas adultas, ou 2 fêmeas adultas e 1 macho sub-adulto. As orcas são a espécie de cetáceos com mais acentuado dimorfismo sexual (i.e. os géneros têm formas diferentes), sendo possível distinguir o sexo dos indivíduos visualmente, através da forma da sua barbatana dorsal (mais alta e erecta nos machos e mais baixa e curvada nas fêmeas).
Reparámos que os animais praticamente não saiam do mesmo sítio e podiam perceber-se alguns movimentos mais bruscos, quase como se se rebolassem perto da superfície. Algo nos dizia que estes animais se estavam a alimentar e, pela intensidade dos movimentos, deveria ser de alguma presa grande. Ocorreu-nos que fosse um grande tunídeo, ou algo do género. As orcas estavam sem dúvida concentradas: chegaram a proximar-se bastante do nosso casco mas sem mostrarem nenhum interesse ou curiosidade. Fomos simplesmente ignorados. Houve uma altura em que vimos uma delas a vir à superfície com o que parecia ser um objecto branco na boca. Aqui achámos estranho tratar-se de um tunídeo, pois em princípio se assim fosse o pedaço que vimos na boca da orca deveria ser mais escuro e ensanguentado. Mas não era fácil distinguir. Fomos tirando notas acerca do seu comportamento e recolhendo imagens para que tudo ficasse resgistado. Sem dúvida nenhuma agora de que se estariam a alimentar.
O mar e o vento na costa Oeste estavam a tornar-se mais encrespados, e esta aventura estava no auge. As orcas, que são o maior dos delfinídeos (e não uma baleia), conjugam a imponência do seu porte com a agilidade de um golfinho. É uma sensação quase inexplicável. Sentimo-nos mais do que nunca perto do lado selvagem da natureza. Foi só um pouco mais no final do encontro que a outra embarcação comunicou connosco e nos disse que finalmente pode ver qual a presa das orcas: um tubarão-martelo. Afinal, alimentar um corpo daquele tamanho requer algumas exigências nutritivas, e o tamanho de algumas das suas presas é considerável. Assim sendo, caçar em conjunto muitas vezes garante um maior sucesso.
13:32h As orcas alinharam-se lado a lado e sincronizaram o seu mergulho. Tornou-se óbvio que este momento tinha terminado e que estes animais estavam a retomar a sua viagem, provavelmente em busca de mais alimento noutras paragens. Pudémos ouvir a sua respiração forte, e soubémos que tinha também chegado a nossa hora de partir. Num monento de silêncio e respeito observámo-las a partir, contra a ondulação.
Estes pouco mais de 15 minutos soaram a eternidade. Uma paragem no tempo e na memória que alimenta a nossa vocação. Afinal, estes são momentos que nos fazem sentir tão vivos e que nos dão a fantástica certeza de que somos apenas mais uma espécie da natureza.
13:41h Não bastando o espectáculo que a natureza já nos havia reservado, no regresso cruzámo-nos com um grupo de cerca de 100 golfinhos-comuns, dispersos. Alguns animais acompanharam a embarcação por breves instantes, já que íamos em direcções diferentes. Sagres é sem dúvida um local especial que comporta uma enorme diversidade marinha.
... Seguimos viagem, com um sorriso nos lábios e pouca conversa - já que, nestes momentos, apenas o silêncio diz tudo.